O Paradoxo Da Nossa Humanidade
Postado em 20. fev, 2010 por mk na(s) categoria(s) Outros
Saudações a todos os colegas do blog,
Em alguns comentários passados, falei sobre a singularidade do ser humano, como somos tão diferentes dos demais animais e seres vivos do planeta, citei algumas caracterísitcas como o altruísmo, o senso moral, o anseio e busca por Deus.
Nesse post pretendo explorar mais a fundo esse tema, para minha felicidade, estava lendo alguns livros no carnaval e me deparei com esse belo texto de John Stott intitulado “O paradoxo da nossa humanidade”. Neste texto o autor fala exatamente sobre a singularidade do ser humano, por isso resolvi postá-lo na íntegra. É um texto leve e de fácil leitura e compreensão, talvez um pouco longo para um blog, mas quem estiver interessado no assunto, aí está uma boa leitura.
Grande abraço,
MK
O Paradoxo Da Nossa Humanidade
por John Stott
“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.”
(Gênesis 1.27)
Duas vezes na Bíblia a pergunta é feita e, até certo ponto, respondida: “Que é o homem?” (Sl 8.4; Jó 7.17); ou seja, o que significa ser um ser humano? Qual a essência da nossa humanidade?
Há três razões pelas quais essa pergunta é considerada de grande importância – pessoal, política e funcional.
Vejamos primeiro a razão pessoal. Perguntar “o que é o homem?” é uma outra maneira de perguntar “quem sou eu?”. Isso nos capacita a satisfazer tanto à antiga fórmula grega gnothi seauton (“conhece-te a ti mesmo”) quanto à busca atual por nossa própria identidade. Não há campo mais importante para a pesquisa e a busca do que esse.
Até que tenhamos descoberto nós mesmos, não conseguimos descobrir facilmente nenhuma outra coisa.
Há uma história sobre Arthur Schopenhauer, o filósofo alemão do pessimismo, que viveu no século 19. Certo dia, ele estava sentado em um banco na praça de um parque em Frankfurt. Estava tão maltrapilho e desalinhado (como os filósofos ocidentais às vezes andam!), que o guarda do parque confundiu-o com um mendigo. Ele lhe perguntou asperamente: “Quem é você?”, ao que o filósofo respondeu amargamente: “Por Deus, eu gostaria de saber”.
Douglas Coupland faz a mesma pergunta hoje. Ele é o inventor da agora popular expressão “Geração X” – “X” que dizer a identidade desconhecida de sua geração. “As pessoas não têm um nome”, ele escreve, “elas são uma geração ‘X’”. Então, “o que torna os seres humanos… humanos?”, ele pergunta. “Nós sabemos qual é o comportamento dos cachorros: eles fazem coisas de cachorro – correm atrás de pedaços de pau… colocam a cabeça para fora das janelas dos carros em movimento.” Assim, conhecemos o jeito de ser dos cachorros; mas “o que será exatamente aquilo que os seres humanos fazem e que é especificamente humano?” Novamente, “qual é o você de você?”, ou seja, “qual é o seu você verdadeiro?”
Tem-se dado muitas respostas a essa pergunta, especialmente a que se relaciona à sua superioridade dos seres humanos. É interessante observar algumas dessas respostas. O ser humano foi descrito por Aristóteles como um animal político. Por Thomas Willis, como um animal sorridente; por Benjamim Franklin, como um animal fazedor de ferramentas; por Edmund Burke, como um animal religioso; e por James Boswell (o gourmet), como um animal que cozinha.
Outros escritores têm se concentrado em algumas características físicas como sendo nossas características distintas. Platão falou muito sobre a postura ereta, de modo que os animais olham para baixo, enquanto somente os seres humanos olham para o céu. Aristóteles acrescentou a peculiaridade de que somente os seres humanos são incapazes de sacudir as orelhas. Um médico de Stuart, no entanto, ficou muito impressionado com nossos intestinos, com os seus “circunlóquios sinuosos, curvas e desvios.” E, então, no final do século 18, Uvedale Price prestou bastante atenção em nosso nariz: “O homem é, eu ceio, o único animal que possui uma projeção marcante no meio da face”.
No entanto, nenhuma dessas descrições de nossa distinção é completa, nem chega ao âmago da questão.
Voltemo-nos agora da importância pessoal para a importância política da questão sobre a nossa humanidade. O ponto principal de conflito entre as ideologias rivais de Marx e Jesus continua sendo a natureza dos seres humanos. “Ideologias… são na verdade antropologias”, escreveu J. S. Whale; elas são diferentes doutrinas do homem. Ou seja, os seres humanos possuem um valor absoluto, pelo qual eles devam ser respeitados? Ou o seu valor é somente relativo ao Estado, por meio do qual eles podem ser explorados? Em uma linguagem mais simples, as pessoas são servas da instituição ou a instituição é serva das pessoas?
Por fim, o questionamento sobre a nossa humanidade tem uma importância profissional. As grandes profissões (por exemplo na área da educação e do direito) e as chamadas profissões “sociais” (no trabalho médico, paramédico e social) estão todas preocupadas com o bem-estar do seres humanos, sejam eles chamados de pacientes, alunos ou cliente. E a maneira como os profissionais tratam aqueles a quem servem depende quase inteiramente da maneira como os avaliam.
Tendo considerado a importância (pessoal, política e profissional) de nossa pergunta, retornemos à pergunta em si mesma. A crítica cristã a grande parte da filosofia e ideologia modernas é que elas são muito ingênuas em seu otimismo acerca da condição humana ou muito negativas em seu pessimismo, conquanto ousemos acrescentar que somente a Bíblia mantém o equilíbrio.
Os humanistas seculares tendem a ser bastante otimistas. Na verdade, eles declaram que os seres humanos não são nada senão o produto de forças evolucionárias aleatórias. Mas têm uma confiança ilimitada naquilo que consideram nosso potencial evolucionário futuro, especialmente que um dia os seres humanos serão capazes de assumir as rédeas de sua própria história e controlar o seu próprio destino. Mas isso é muito otimista. Não leva em consideração o que os cristãos chamam de “pecado original”, que é uma distorção da autocentralidade em nossa natureza e que repetidamente frustrou os sonhos dos reformadores sociais.
Os existencialistas ateus, por sua vez, vão para o extremo oposto, o pessimismo, chegando ao desespero. Pelo fato de, segundo eles, não haver Deus, não há mais valor algum. Embora devamos, de algum modo, encontrar a coragem para ser, nada tem significado e tudo é, no final das contas, absurdo – o que é ao menos lógico, já que Deus está morto. Mark Twain, o famoso sábio americano, embora tenha vivido muito antes do desenvolvimento do existencialismo, expressou um tipo de cinismo existencial quando disse: “Se o homem pudesse cruzar com o gato, isso melhoraria o homem, mas corromperia o gato!” Mas essa idéia é muito pessimista. Não leva em consideração o amor, a alegria, a beleza, o heroísmo e o auto-sacrifício que têm adornado a história humana.
A minha percepção é que somente o cristianismo autêntico evita ambos os extremos, pois o que nós precisamos ter, citando J. S. Whale novamente, é “nem o otimismo fácil dos humanistas, nem o pessimismo obscuro dos cínicos, mas o realismo radical da Bíblia”. As escrituras preservam o paradoxo, a saber, a glória e a vergonha de nossa humanidade, nossa dignidade e nossa depravação.
1. A Glória
É no primeiro capítulo da Bíblia que ouvimos as palavras majestosas de Deus:
“Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão.”
“Criou Deus o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”. (Gn 1.26-27)
Há muita discussão sobre o significado da imagem divina nos seres humanos. Alguns estudiosos enfatizam que nas culturas do Egito e da Assíria o rei ou imperador era considerado como “a imagem de Deus”, representando-o na terra, e que imagens deles eram erigidas em suas províncias para simbolizar a extensão de sua jurisdição. Em oposição a esse contexto, Deus confiou uma responsabilidade real aos seres humanos, nomeando-os para governar sobre a terra e suas criaturas.
No entanto, no desenrolar da narrativa bíblica a imagem divina é claramente aquela que distingue os seres humanos dos animais, a saber, o conjunto de qualidades humanas distintas.
Primeiro, temos capacidade de pensamento racional. Os animais também possuem cérebros, alguns mais rudimentares do que outros, mas eles não têm “compreensão” ou inteligência (Sl 32.9), ao passo que os seres humanos são capazes de pensar, raciocinar, argumentar e debater. Somos conscientes de nós mesmos. Temos habilidade extraordinária de fazer o que estamos fazendo neste momento, ou seja, caminharmos para fora de nós mesmos, avaliarmos a nós mesmos e nos fazermos perguntas acerca de nossa própria identidade. É verdade que, astronomicamente falando, como um cientista disse ao outro, o homem é extremamente insignificante. Mas, astronomicamente falando, como seu colega respondeu, o homem é o astrônomo! Somos questionadores incansáveis do universo. Como o arcebispo William Temple certa vez disse, “sou maior do que as estrelas, pois eu sei que elas estão lá no alto, enquanto elas não sabem que eu estou aqui embaixo”.
Segundo, temos capacidade de escolha moral. Temos consciência para discernir entre o bem e o mal, bem como um grau de liberdade para escolher entre eles. Somos conscientes de uma ordem moral fora e acima de nós, à qual sabemos que prestamos conta, de forma que temos um anseio interior de fazermos o que acreditamos que é certo e um profundo sentimento de culpa quando fazemos o que sabemos que está errado.
Mas os animais não possuem senso moral. Você pode, por exemplo, treinar um cachorro (por meio de punições e recompensas repetitivas) para obedecer às suas ordens e aprender que ele pode sentar-se somente sobre uma cadeira no corredor. Se, ao entrar na sala, você o encontrar sentado sobre um assento proibido, ele instintivamente se encolherá, não porque se sinta culpado (embora pareça), mas porque saber que será punido.
Terceiro, temos capacidade de criatividade artística. Quando Deus nos criou à sua própria imagem, ele nos fez criativos como ele. Somos “criaturas criativas”. Desenhamos e pintamos, construímos e esculpimos, sonhamos e dançamos, escrevemos poesias e compomos. Os seres humanos são imaginativos e inovadores. Apreciamos aquilo que é belo aos olhos, ao ouvido e ao toque.
Quarto, temos capacidade de nos relacionarmos socialmente. Todos os animais possuem pares, se reproduzem e cuidam de seus filhotes. Enquanto alguns são gregários, andando em bandos ou rebanhos, outros desenvolvem estruturas sociais complexas, como, por exemplo, abelhas, vespas e formigas. Mas os seres humanos anseiam por autênticos relacionamentos de amor. O amor não é apenas um distúrbio das glândulas endócrinas! Todas as pessoas sabem que o amor é a maior de todas as coisas no mundo. Viver é amar, e sem amor a personalidade humana se desintegra e morre. Além disso, os cristãos sabem por que o amor é proeminente – porque Deus é amor em essência, tanto que, quando ele nos fez à sua imagem, nos deu a capacidade de amar e de sermos amados.
Quinto, temos capacidade para uma adoração humilde. Tem havido muita discussão acerca do colapso do marxismo europeu e suas causas. Muitos crêem que isso se deveu ao materialismo exacerbado. O materialismo não pode satisfazer o espírito humano, quer na sua forma capitalista, quer na sua forma comunista. Sabemos instintivamente que há uma realidade transcendente, além da ordem material, e as pessoas a estão buscando em toda parte. O movimento Nova Era é talvez a mais recente evidência dessa busca. Os seres humanos não vivem – e na verdade não podem viver – só de pão, Jesus disse, citando o Antigo Testamento (Mt 4.4; Dt 8.3). Ou, como Dostoievski escreveu, “o homem deve prostrar-se diante do infinitamente grande”. Somos mais verdadeiramente humanos quando estamos adorando a Deus.
Aqui estão cinco capacidade humanas (pensar, escolher, criar, amar e adorar) que nos distinguem dos animais e que juntas constituem a imagem de Deus em nós. Não é de se admirar que poetas e dramaturgos tenham celebrado a dignidade única dos seres humanos. Hamlet não estava exagerando quando disse de si mesmo: “Que obra de arte é o homem! Quão nobre em razão! Quão infinito em suas faculdade! … Em ação age como um anjo! Em apreensão como um deus! A beleza do mundo! O modelo dos animais!”.
Como eu gostaria que pudéssemos terminar este texto e seguir para o próximo tópico radiantes, com a auto-estima intocada! Mas há um outro lado da nossa humanidade, mais escuro, que gostaríamos de poder esquecer, mas que se mantém reafirmando a si mesmo e com o qual, em nossos melhores momentos, ficamos completamente envergonhados.
Como Mark Twain afirmou, “O homem é o único animal que cora de vergonha. Ou que precisa corar”.
2. A Vergonha
O próprio Jesus falou sobre a vergonha. Talvez a sua declaração mais expressiva seja esta:
“Pois do interior do coração dos homens vêm os maus pensamentos, as imoralidades sexuais, os roubos, os homicídios, os adultérios, as cobiças, as maldades, o engano, a devassidão, a inveja, a calúnia, a arrogância e a insensatez. Todos esses males vêm de dentro e tornam o homem ‘impuro’”. (Mc 7.21-23)
Portanto, Jesus não ensinou a bondade fundamental da natureza humana; ele insistiu em nossa capacidade interior para o mal. Na verdade, nessa passagem há quatro aspectos da perversidade humana que merecem a nossa atenção.
Primeiro, a extensão do mal é universal. Notamos que Jesus não estava descrevendo o segmento criminoso da sociedade, ou algumas tribo particularmente degradada. Ele estava falando com aquelas pessoas religiosas e piedosas chamadas fariseus. Ele fez uma declaração genérica acerca de toda a raça humana, a saber, que do coração do homem (todos os homens, mulheres e crianças) coisas ruins brotam.
Segundo, a essência do mal é a autocentralidade. Já observamos isso. Jesus agora apresenta uma lista de treze “maldades” e, quando as estudamos, notamos que são todas manifestações da autocentralidade humana. São pensamentos, palavras e obras dos quais nos tornamos culpados quando fracassamos em colocar Deus em primeiro lugar, nosso vizinho como o próximo da lista e nós mesmos por último. Certa vez apanhei o dicionário e procurei pelas palavras compostas com “auto” – palavras como auto-afirmação, auto-indulgência, autopromoção, auto-gratificação, auto-glorificação, auto-piedade. Há mais de cinqüenta palavras compostas por “auto” que têm significado pejorativo. Nós precisamos desse vocabulário rico para expressar nossa autocentralidade multifacetada.
Terceiro, a origem do mal é o coração humano. Como já foi dito muitas vezes, “o coração do problema humano é o problema do coração”. Os fariseus, com quem Jesus estava debatendo, tinham uma visão externa e cerimonial de pureza e corrupção. Eles se preocupavam em lavar as mãos e os vasos, e em não comer certos alimentos. Porém Jesus estava enfatizando não o exterior, mas o interior. O que nos corrompe não é o que vai para dentro de nós (para nosso estômago), mas o que sai de nós (do nosso coração).
Alguém poderia quase dizer que Jesus estava nos apresentando ao freudismo séculos antes de Freud. Mas o que Jesus chamava de coração não equivale ao que Freud chamava de inconsciente. Ele é como uma fonte muito profunda. Normalmente o depósito grosso de barro no fundo não pode ser visto nem é notado. Mas quando as águas da fonte são agitadas pelo vento da emoção violenta, a sujeira, da aparência e cheiros mais malignos – ira, malícia, lascívia, ódio, crueldade, vingança -, brota das profundezas até a superfície, e ficamos horrorizados com a visão das maldades de que o nosso coração é capaz.
Quarto, o resultado do mal é que ele nos degenera. Ou seja, ele nos torna impuros aos olhos de Deus e incapacitados para a sua presença. Todos aqueles que já tiveram uma visão, ainda que momentânea, da santidade de Deus não conseguiram suportar o que viram – como Moisés na sarça ardente, que “cobriu o rosto pois teve medo de olhar para Deus” (Êx 3.6).
Então, essa é a vergonha da nossa humanidade. A maldade humana é universal em sua extensão, autocentralizada em sua natureza, interior em sua origem e degradante em seus efeitos. Não se trata somente do diagnóstico do (compreensivelmente) maior professor de ética na história; isso é verdadeiro em nossa própria experiência. É certamente verdadeiro na minha.
3. O Paradoxo
Agora estamos prontos para juntas a glória e a vergonha, a dignidade e a depravação de nossa humanidade. Os seres humanos são um paradoxo estranho e trágico. Somos capazes da mais excelente nobreza e da mais baixa crueldade. Somos capazes de nos comportar por um momento como Deus, a cuja imagem fomos criados, e no momento seguinte como bestas, de quem fomo feitos para ser para sempre distintos. Somos capazes de pensar, escolher, amar e adorar, mas somos igualmente capazes de odiar, invejar, lutar e matar. Os seres humanos criaram os hospitais para o cuidado dos doentes, as universidade para a aquisição de sabedoria e as igrejas para a adoração a Deus. Mas eles inventaram também as câmaras de torturas, os campos de concentração e os arsenais nucleares.
Esse é o paradoxo da nossa humanidade. Somos ao mesmo tempo nobres e ignóbeis, racionais e irracionais, morais e imorais, criativos e destrutivos, amorosos e egoístas, parecidos com Deus e bestiais.
Não conheço declaração mais eloqüente sobre o paradoxo humano do que aquela feita muitos anos atrás pelo bispo Richard Holloway:
“Esse é o meu dilema. Eu sou pó e cinzas, frágil e inconstante, um conjunto de respostas comportamentais predeterminadas… cheio de temores, cercado de necessidades… sou a quintessência do pó e ao pó voltarei… Mas há algo mais em mim… Eu posso ser pó… mas pós angustiado, pó que sonha, pó que possui estranhas premonições de transfiguração, de uma glória aguardada, de um destino preparado, de uma herança que um dia será minha… Assim, a minha vida é esticada numa dolorosa dialética entre cinzas e glória, entre fraquezas e transfiguração. Eu sou uma pergunta para mim mesmo, um enigma exasperador… essa estranha dualidade de pó e glória.”
O paradoxo da nossa humanidade possui várias conseqüências práticas – especialmente políticas, psicológicas e pessoais.
Politicamente, o paradoxo (ou a ambigüidade) humano faz a democracia a melhor forma de governo jamais desenvolvida, pois, idealmente, a democracia reconhece tanto a dignidade como a depravação do ser humano. Por um lado, ela reconhece nossa dignidade humana, pois se recusa a impor as pessoas que nos governarão sem o nosso consentimento. Ela nos deixa participar do processo de tomada de decisão. Ela nos trata com respeito, como adultos responsáveis.
Por outro lado, a democracia reconhece também nossa depravação humana, quando se recusa a concentrar poder nas mãos dos poucos, uma vez que isso não é seguro. Assim, faz parte da essência da democracia dividir o poder e proteger os governantes de si mesmos. Como Reinhold Niebhur afirma, “a capacidade do homem para praticar a justiça torna a democracia possível, mas a inclinação do homem para a injustiça torna a democracia necessária”.
Vejamos agora as conseqüências psicológicas do paradoxo humano. Todos sabemos que é importante para a nossa saúde mental termos uma auto-imagem equilibrada. Algumas pessoas têm sentimentos devastadores de inferioridade e uma auto-imagem muito pobre. Outras vão para o extremo oposto. Por exemplo, o americano Carl Rogers, fundador da “psicoterapia centrada no cliente”, acreditava que o cerne da nossa personalidade humana é positivo, e que nós, portanto, precisamos desenvolver um “auto-respeito positivo incondicional”. Esse tipo de pensamento floresce no movimento da auto-realização e tem dominado muitos cristãos, que argumentam que devemos amar a Deus, ao nosso próximo e a nós mesmos. Mas isso significa que devemos amar ao nosso próximo como de fato, sendo caídos, amamos a nós mesmos. Não é uma exortação para amarmos a nós mesmos, como fica claro a partir dos três argumentos. Primeiro, Jesus falou do primeiro e do segundo mandamentos, mas não mencionou o terceiro. Segundo, o auto-amor é a essência do pecado (2 Tm 3.2). Terceiro, o amor que deve caracterizar a nossa vida é o amor ágape, que inclui sacrifício e serviço, e que, portanto, não pode ser contabilizado para nós mesmos. Como podemos sacrificar a nós mesmos para servir a nós mesmos?
O que, então, é uma auto-imagem equilibrada? Se não devemos nem odiar nem amar a nós mesmos, como respeitar a nós mesmos? É aqui que entra o paradoxo humano. Precisamos lembra que os seres humanos são produto da criação e da queda. Logo, devemos reconhecer com gratidão tudo em nós que diz respeito à nossa criação à imagem de Deus e repudiar ou negar, resolutamente, tudo em nós que diz respeito à queda. Assim, somos chamados tanto à auto-afirmação quanto à autonegação, e precisamos de discernimento para saber qual das duas é mais apropriada e quando.
A terceira conseqüência do paradoxo humano é pessoal. Observamos que Jesus descreve o mal como algo que brota do coração e causa a nossa degradação. Portanto, está claro, a partir disso, que temos uma necessidade dupla: de um lado a purificação da degradação; do outro, um novo coração, com novos desejos e aspirações. Para mim, é verdadeiramente maravilhoso que ambos nos sejam oferecidos no Evangelho. Pois Cristo morreu para nos purificar e, pela obra interior do Espírito Santo, ele pode nos tornar novos. Essa é a aplicação lógica do Evangelho em resposta ao paradoxo da nossa humanidade.
Referências:
COUPLAND, Douglas. Life After God. Touchstone, 1994, p. 9.
THOMAS, Keith. O Homem e o mundo natural (1983; Penguin, 1984). São Paulo: Companhia das letras, 1988.
WHALE, J. S. Christian Doctrine (1941). Fontana, 1957. P. 33
SHAKESPEARE. William. Hamlet. Ato II cena 2
TWAIN, Mark. Título do capítulo 28 de More Tramps Abroad. Chatto & Windus, 1897.
HOLLOWAY, Richard. Extrato de uma palestra que ele deu na Conferência de Renovação Católica de Loughborough em abril de 1978.
NIEBUHR, Reinhold. The Children of Light and the Children of Darkness; A Vindication of Democracy and a Critique of its Traditional Defenders. Nisbet, 1945. P. vi
ROGERS, Carl R. On Beboming a Person. Constable, 1961. P. 87.
Fonte:
STOTT, John. Por que sou cristão. Viçosa, MG: Ultimato, 2004.

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